“A gente deixa o governo, mas o governo não deixa a gente”

Ex-governador conta sobre sua rotina conturbada mesmo fora do governo e antecipa que sairá candidato ao senado em 2018


O voo do tucano não acabou. Ao bater asas do Palácio República dos Palmares, o ex-governador Teotonio Vilela Filho (PSDB) esperava um pouso tranquilo, no retorno ao ninho caseiro. Não aconteceu. O coração, alguns sustos em família, a crise no setor sucroalcooleiro, questionamentos sobre o seu governo, fiscalizações e a política não o deixaram parar, segundo ele, nem por um dia de férias. Passou o janeiro inteiro fazendo exames de saúde, em São Paulo, e confirma publicamente, pela primeira vez, que saiu diretamente da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Santa Casa de Maceió para transmitir o cargo ao sucessor, Renan Filho (PMDB). O final de governo foi periclitante. Nos últimos dez dias de mandato, teve três internações hospitalares por causa de arritmia cardíaca.

A repercussão sobre o endividamento do Estado, a herança maldita e a gastança de final de governo para inaugurar obras o incomoda. Na semana passada, a assessoria de Vilela procurou a Gazeta, após a publicação de reportagens investigativas que apontam Alagoas como um canteiro de obras paradas. Numa entrevista franca e cordial, o ex-governador assume que decidiu priorizar obras de estradas, em detrimento de projetos para a Saúde, Educação, Segurança Pública e outras áreas, mas considera que houve equívocos nas reportagens da Gazeta.

Apesar das sequelas, Vilela nem cogita sair da política e pisa mais fundo no acelerador. Confirma que será presidente estadual do PSDB e mais: antecipa que sairá candidato ao Senado Federal em 2018, “se me der saudade”. E ao governo? “De forma alguma, não tenho mais cabelos para ficar brancos”.

Gazeta. Como é ficar longe da cadeira de governador?

Teotonio Vilela Filho. As atividades são diferentes, mas o ritmo tem sido muito intenso. Fiquei cuidando da saúde, fiz um check up completo, cuidando da família porque precisavam de mim (fiquei muito ausente esses oito anos), cuidando dos negócios da família porque o setor sucroalcooleiro vive uma crise muito grande. Precisei chegar mais perto, a minha família é acionista da Usina Seresta e todo o setor no Brasil está vivendo dificuldade. Também cuidando um pouco do governo porque a gente deixa o governo, mas o governo não deixa a gente. São esclarecimentos junto ao Tribunal de Contas, conversas com deputados, os prefeitos e o PSDB, o meu partido, também fazendo uma interação constante comigo.

Dá para deixar a política em segundo plano?

Eu vou assumir a presidência do PSDB estadual, no mês de julho. A política tem me ocupado. Tem os amigos que estão precisando de amparo, até psicológico, tem pessoas que trabalhavam comigo há oito anos e, às vezes, precisam vir desabafar comigo. Todos os dias eu tenho trabalhado aqui (numa sala emprestada no escritório da irmã, Fernanda Vilela). Tenho ido a Brasília me inteirar da conjuntura nacional, que é crítica, grave e eu não posso ficar alheio ao que está acontecendo. E há a participação do meu partido em todo esse processo. Estive em São Paulo, não somente cuidando da saúde, mas também em encontros, com o governador [Geraldo] Alckmin, o presidente Fernando Henrique. Enfim, o ritmo tem sido muito intenso, pretendo inclusive dar um tempo para descansar, a minha mulher cobra isso. Pelo menos uns quinze dias.

A expressão “herança maldita” foi muito usada no começo do seu governo e volta à tona agora. Como o senhor se sente ao estar no outro lado da moeda?

Eu nunca usei o termo herança maldita. Eu registrei a realidade que encontrei: quanto o Estado tinha de dívidas, quanto tinha de restos a pagar a curto prazo, quanto tinha em caixa para fazer frente a esses compromissos. Era importante isso, senão mais adiante poderia haver um entendimento equivocado, de que determinadas questões teriam acontecido no meu governo. Acho legítimo que o meu governo receba o mesmo tratamento. É importante que seja observada a realidade dos fatos, que não haja tendência no sentido de deteriorar, de aviltar o governo. E isso eu não enxergo no atual governo, não vejo vontade política de querer aviltar. Eles estão fazendo o que deve ser feito. O meu governo é um governo que tem feitos e também defeitos. Mas os feitos foram todos realizados com muito amor. Os defeitos... eu atribuo à natureza humana, que não é perfeita. Agora, a imprensa tem colocado algumas questões que precisam ser esclarecidas.

O novo governo aponta a grande dívida que herdou. Esta é uma das questões?

Não são questões vindas do governo, mas talvez de fontes (ligadas ao governo). A questão dos empréstimos, por exemplo. Eu vi na reportagem, colocam lá: o Estado já está endividado e o governo Téo tomou mais dois bilhões de reais. É verdade, estava endividado. O Estado devia sete bilhões, contraiu mais dois bilhões, e a dívida deve estar por volta dos R$ 9 bilhões. Só que eu tomei dois bilhões e paguei cinco da dívida, mas a imprensa não coloca que eu paguei isso, diz só que o Estado estava endividado e eu tomei mais dois. E tomei dois, do Banco Mundial, do BNDES e do BID, a um juros que é a metade do juros da dívida do Estado para com a União. Então, para você ver o absurdo que é, eu recebi o Estado com uma dívida de sete, paguei cinco, e o Estado continua devendo os sete, mais os dois que tomei emprestado. Essa dívida com a União é impagável. Está certo o governador Renan [Filho] em batalhar para mudar os indexadores. Eu batalhei muito por isso também.

Muitos investimentos em Saúde, Segurança, Educação e áreas prioritárias foram remanejados para obras em estradas, mais fáceis de realizar e inaugurar no final do seu mandato. Por que o senhor fez isso?

O Estado de Alagoas precisa de tudo. Não há um projeto que tenha uma importância muito maior do que os outros, não. O que motivou as nossas decisões? Ora, cada governo vive a suas circunstâncias, eu batalhei muito para viabilizar esses recursos, fiz ajuste fiscal, fiz projetos, convenci os bancos de que o Estado tinha condições de obter aqueles recursos. Eu quis entregar as obras provenientes desses recursos, se não deu para fazer um hospital, eu vou fazer outra coisa. O governo seguinte vai batalhar outros empréstimos e fazer os seus projetos. Alguém pode dizer: mas, deixou de fazer um hospital para fazer uma estrada.

A nossa reportagem disse isto.

Não houve uma decisão assim: olhe, está aqui o hospital e a estrada. O hospital, seria apenas para iniciar a obra, já a estrada era para entregar pronta. Saúde, Educação, Segurança Pública, todos esses três pontos que são as principais demandas da população dependem muito de desenvolvimento e de emprego. Se você tem emprego para as pessoas, certamente elas terão melhor saúde, mais segurança, porque ao invés delas estarem roubando o povo, vão estar empregadas, trabalhando. Estrada também é isso. Conversa com o trade turístico, pergunta a um empresário desses: “o que você acha das estradas que o Téo fez”. Vai lá em Delmiro Gouveia, que o cara levava seis horas e agora tira duas horas e quarenta minutos. Pergunta a ele. Aquela estrada vai dialogar com o Canal do Sertão, para desenvolver lá o Sertão. Ou deixa para lá, desiste do Sertão? Tem que fazer estrada para Delmiro Gouveia.

O senhor faria a mesma coisa se fosse uma transição para o seu segundo mandato?

Não, mas aí seria para o meu governo realizar. Cada governo tem as suas prioridades. Porque os compromissos e as prioridades são as do meu governo. Agora, muitas obras eu deixei em andamento. Ficaram quase 180 milhões de reais [dos empréstimos] para o governador Renan Filho concluir muitas obras iniciadas no meu governo. Isso não caiu do céu, cada convênio desse exige projeto, reuniões de convencimento, uma luta. Investimos muito fora de estradas também. Mas, sim, eu fiz a opção pelas obras que eu tinha condições de avançar mais durante o meu governo. Algumas eu não concluí, inclusive há estradas que eu não concluí, também presídios, o polo tecnológico de Jaraguá está em andamento, a estrada lá do aeroporto, teve muita coisa que nós não conseguimos terminar. O que foi mal feito, o que foi ruim, eu não vou lhe negar. O meu governo não foi perfeito, apenas eu gostaria que fosse reconhecido o que foi feito e o que é bom, mas sem o menor constrangimento, eu faço uma autocrítica porque eu não sou louco, eu não sou cego.



Por Gazeta de Alagoas

Domingo, 05 de Abril de 2015
 

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